Armazém dos sonhos
🖋️ O Armazém dos Sonhos
Havia um dia em que eu não tinha mais sonhos.
Não era tristeza escancarada,
nem dor que grita.
Era pior.
Era um vazio silencioso —
daqueles que não incomodam o suficiente
para serem resolvidos.
Foi então que bati à porta
do Armazém dos Sonhos.
Não sabia exatamente onde ficava,
mas, curiosamente,
quem precisa muito sempre encontra.
O guardião atendeu.
Não parecia surpreso.
Talvez já estivesse acostumado
com gente como eu —
os que chegam sem nada por dentro.
— Vim buscar um sonho — eu disse,
sem rodeios,
como quem pede um copo d’água.
Ele me olhou com calma.
— Os sonhos que estão aqui
foram criados por seus próprios sonhadores.
E só podem ser usados por eles.
Aquilo me soou injusto.
— Então me empreste um — insisti.
— Prometo devolver depois de realizá-lo.
Ele negou.
Sem dureza.
Mas com uma firmeza que não abre brechas.
E então disse algo que me atravessou:
— Volte para sua caverna.
É de lá que os sonhos nascem.
Crie o seu.
Depois volte.
Saí de lá frustrado.
Confesso: achei aquele lugar egoísta.
Guarda sonhos, mas não compartilha —
pensei.
Recolhi-me.
Desci para dentro de mim
como quem entra em uma caverna esquecida.
Escuro.
Silencioso.
Desabitado.
Ali, tentei acender alguma coisa.
E, depois de muito esforço,
um sonho surgiu.
Mas não era exatamente para mim.
Era maior.
Sonhei que o Armazém dos Sonhos
abrisse suas portas
para todos os que já não conseguem sonhar.
Para os cansados.
Para os desmotivados.
Para os que perderam o sentido.
Levei esse sonho até lá
e o depositei.
Como quem faz uma oferta.
Mas, desta vez,
o guardião não estava sereno.
Ele se enfureceu.
— Você não entende — disse.
— Agora todos virão aqui buscar sonhos.
E eles serão usados, repetidos, esgotados.
Fez uma pausa.
E completou:
— Um sonho realizado muitas vezes
perde sua força.
E, às vezes…
um sonho realizado
é um sonho morto.
Fiquei em silêncio.
E, ali, compreendi algo
que não cabe em explicação simples:
Sonhos não são objetos.
Não são atalhos.
Não são heranças compartilháveis.
São nascimentos.
E cada um precisa atravessar
sua própria caverna
para gerar o seu.
Porque, no fim…
o que mantém um sonho vivo
não é a sua realização —
é a chama única
de quem o sonhou primeiro.
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